Sobre verdades e mentiras
Escrever como um exercício de redenção ou como uma forma de assumir uma identidade nova, pensada e projetada com todos os detalhes daquilo que sempre quisemos ser.
Ler, e aceitar ou não as mentiras como verdades inquestionáveis, e as verdades pintadas com tintas que não as delas.
Seja como for, literatura – a boa literatura, pelo menos – é capaz de nos levar a tudo isso, a todas essas sensações e permissões, a nos esvaziar de nós mesmos e vivermos – ainda que momentaneamente – num outro mundo, mais perfeito e mais milimetricamente pensado.
Neste ensaio discutiremos as dualidades do processo de criação da literatura e da leitura que fazemos de tais dualidades, tendo como textos-base os escritos de Mario Vargas Llosa e o seu “A verdade das mentiras” e a “A escrita como leitura”, de Susan Sontag.Ler é o mais prazeroso exercício mental que se pode ter – independentemente da veracidade do que se lê.
Ler, aceitando que ficção é só uma projeção das coisas do jeito que poderiam ou que nós queríamos que fossem, é melhor ainda.
Aceitar que na literatura alguns bichos podem falar, que um homem morto pode escrever do além as suas memórias, que um rochedo intransponível no meio do oceano tinha sido um gigante apaixonado pela mais belas das ninfas, que Penélope esperou – sempre confiante e fiel – durante 20 anos pela volta de seu amado Ulisses, que uma única mulher tenha sido o motivo que iniciou a guerra e a destruição de Tróia, é nos deixarmos ser raptados e ao mesmo tempo libertados por essas mentiras.
Susan Sotang, citando Virginia Woolf diz que “o estado de leitura consiste na eliminação do ego”. Eliminar o ego, abrir as portas da percepção para o fantástico fantasioso, para a mentira que captura as convenções e mostra outros caminhos, que eleva a identidade de quem lê.Verdade. Mentira. Paradoxos sutilmente ligados que podem ser facilmente maquiados pelas mãos e mentes dos profissionais – todos com defeito de fabricação – da literatura.
Como já dissemos antes, e Llosa e Sotang confirmam, não importa se o que lemos é verdade ou mentira. Importa o efeito do que lemos em nossas percepções, emoções e identidades.
Literatura não é somente um inventário extenso – e por isso mesmo monótono – daquilo que já sabemos e conhecemos, mas um mundo novo a ser explorado a cada nova página escrita, a cada nova página lida.
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