Vozes do céu


Os vocais femininos são indiscutivelmente os melhores. A voz das mulheres, muito mais que a dos homens, tem uma ligação que transcende a audição e toca os cantos mais obscuros e sensíveis da emoção.
As vozes femininas, ainda que possam ser graves ou agudas demais, têm muito de uma doçura quase que maternal. Não é à toa que quase todas as músicas de que eu gosto são cantadas por mulheres – acho que Freud explica…
Será que existe sequer um mortal que não sinta o peito ficar pequeno e a garganta virada em nó ao ouvir Teresa Salgueiro cantando, para falar em uma música popular, O Pastor? Teresa tem uma das vozes mais fantásticas, profundas, tocantes e belas do mundo. Penso mesmo que os anjos devem ter uma voz parecida e que, se existe um deus criador, nós temos o privilégio da audição apenas para ouvir Madredeus ao menos uma vez na vida.
Outras vozes incrivelmente lindas que fazem com que eu tenha arrepios na pele e momentos de abandonar o peso do corpo e flutuar por uma dimensão que ainda não sei qual é:
Igual a Elis Regina não há outra. Até que a Maria Rita ainda lembra um pouco – fazer o que? Não dá pra lutar contra o DNA – mas não há na música brasileira voz que possa sequer ser comparada com a de Elis. E não é só uma questão de voz, o que já bastaria para que não houvesse mais competentes nesse parâmetro, mas de qualidade artística e interpretativa. Elis era uma entidade no palco tão forte quanto Iemanjá é no mar. Música é mesmo coisa de deuses.
Dolores O’Riordan – a bela irlandesa, mundialmente conhecida como a vocalista da banda de rock alternativo The Cranberries, tem o poder de envolver não só emoção e ouvidos, mas toda a minha mente. Se está rolando Dolores no player, pode contar que eu estou perdida em devaneios e sonhos em um lugar qualquer da Terra do Nunca. Ridiculous Thoughts é uma das minhas preferidas.
Há quem reclame, brigue, chingue e diga que Alanis Morissette não canta, grita. O fato é que ela pode gritar o quanto quiser, porque a mulher sabe gritar. Unanimidade entre a galerinha que andava de camisa xadrez pra ir pro colégio nos anos 90, Alanis continua sendo única na minha lista, não só pela voz e pelos gritos, mas pelo porquê dos gritos. As letras têm muito a ver com o que sou e penso e sinto – a amargura e a rebeldia de quem sabe que o mundo é ruim – , e a voz é de se ter orgasmos múltiplos. Your House é a que mais toca na vitrolinha.
Continua nos próximos posts…

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