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Hilda Hilst

TER SIDO. ESTAR SENDO

Hilda Hilst, depois de anos seguindo a linha da literatura considerada “séria”, parte para a produção de textos, em prosa e verso, eróticos.

O primeiro dessa série, “O caderno rosa de Lori Lamby”, chega ao público causando estranhamento e revolta. Ao contrário do que ela esperava, sua literatura erótica foi odiada pelo leitor, que considerou os textos uma pornografia.

“Cartas de um sedutor” aborda o homossexualismo e o incesto, de uma forma intensa, forte e crua. O narrador confessa os seus próprios desejos e, além disso, denuncia os desejos incestuosos que o aproximam da própria irmã.

Parece que o que rege a vida desses dois irmãos é o sexo. Não o sexo como fonte apenas de prazer, mas como uma tentativa de encontrar-se com o próprio eu, de amenizar a dor de não saber quem é. Uma tentativa de negar e reafirmar o absurdo desejo pelos pais.

Quanto as terríveis recordações que tens do papai, acho muito estranho. Terríveis por quê? Porque te sentes culpada de tê-lo desejado? Isso tudo me parece tão démodé e tão chato. Eu mesmo desejei. Aquele peito dourado, aquelas coxas douradas, aqueles olhos amarelo-dourado, ah,!!! já sei continuas chorando papai … o sol. Não acredito, Cordélia, que aos 40 continues com esse arremedo de tara.
(HILST, 1991, p.27-28)

Há muito mais do que simples pornografia na série que se inicia com “O caderno rosa de Lori Lamby”. Há um estudo complexo da alma humana, das relações incestuosas, dos dramas psicológicos. Há intertextualidade com clássicos da literatura. Há uma crítica ácida à banalização da literatura. Há, acima de tudo, um retrato recorrente do homem e seu espírito sujo. Não é de se estranhar, portanto, a repulsa do leitor com relação a tais obras.

HILDA E DALTON

Quem lê o curitibano Dalton Trevisan certamente sentirá um gosto já conhecido ao ler Hilda Hilst. Dois dos maiores escritores da literatura moderna, Hilda e Dalton se aproximam por meio da linguagem inovadora de seus escritos e de seus temas eróticos, grotescos e críticos. “Nunca me esqueço daquele peido providencial prolongado e silencioso dos meus 14 anos…” (HILST, 1991). “Casei com uma puta do Passeio Público. Tinha tanto piolho que, uma noite dormia de porre, botei um pó no cabelo dela. Dia seguinte, lavou a cabeça e ficou meio cega.” (TREVISAN, 1992).

Nota-se nos dois trechos acima que a linguagem utilizada em ambos é informal, direta, mais próxima da língua falada. Os temas também se assemelham. O primeiro trecho, de Hilst, é tirado de um conto em que o narrador conta como foi sua primeira relação sexual. Á presença do medo constante funde-se o engraçado, o patético, a superstição e, por fim, o inusitado peido que surge como um sinal divino para que a relação não aconteça. Um contraposto com a tragicomédia do segundo trecho, de Dalton Trevisan, onde o grotesco sem-graça se torna engraçado como em um filme “trash”.

Existem muitas características que aproximam os dois autores, mas existem também algumas diferenças fundamentais para que cada um siga sendo único no seu modo de escrever.

Dalton Trevisan é um escritor regional, seus contos, amores e desgostos, estão ambientados em uma redoma de vidro chamada Curitiba. Ele é um apaixonado pela cidade, o que não impede que a cidade seja alvo das mais ácidas críticas em seus textos.

Hilda Hilst não se prende à localização regional, até porque sua literatura tem um plano de fundo um pouco mais profundo e obscuro. Hilda não fala sobre parques e ruas, mas de pessoas e do complexo mundo que é viver.

DAS LETRAS SAGRADAS ÀS TRAMAS SEXUAIS

Antes de falar sobre o erotismo, Hilda Hilst falou sobre Deus, morte, existencialismo, amor. Sempre usando linguagem indomável, narrativas repletas de efeitos, cortes, flashes e imagens. A compreensão de todos os textos sempre depende ou gira em torno de uma “chave”.

Em “A obscena Senhora D”, a “chave” é saber quem é Hillé. Mãe? Filha? Uma senhora, ou uma menina? E Ehud, uma alucinação fantasmagórica? O fluxo narrativo é hermético e descobrir o fio central de toda a trama, tarefa um pouco ingrata para os mais desacostumados, é como “afundar os dedos na matéria do mundo”.

Questionamentos infantis retratam o questionamento universal. Quem é Deus? Por que morremos? Quem somos? Por que vivemos?

…é ta certo, isso de comer e de meter fiz muito gosto, que coisa que tem mais na vida? Que coisa? Depois da morte nada, depois da morte aquela fome, aquela escuridão. Acredita em alma de defunto seu Tunico? Besteira o mundo ta voluído, não tem mais isso não. E Deus? Olhe, isso é assunto de padre, de ministro, de político, é Deus todo dia dentro da boca, de dia Deus, de noite a teta de uma, a pomba de outra, eles é que se regateiam, viu?
(Hilst, 1982)

Na poesia, Hilda torna-se mais introspectiva e fala de sentimentos, predominantemente sobre o Amor, em “Do Amor”, volume de poemas reunidos. Amor, Vida, amor que gera a Vida, Vida que subexiste através do amor. Questionamentos sobre o mistério da Vida continuam.

“Ainda em desamor, tempo de amor será.
Seu tempo e contratempo.
Nascendo espesso como um arvoredo
e como tudo que nasce, morrendo
à medida que o tempo nos desgasta.
Amor, o que renasce.”
(COELHO, 1999)

O EROTISMO PORNOGRÁFICO

Deus não sai de cena quando o tema central é o sexo, o homossexualismo, as fantasias e a loucura sexual. Embora não sejam invocados propriamente, seres celestes, gnósticos e astrais fazem parte do mundo sexual.

Em “Bufólicas”, personagens de contos de fadas são apresentados como desajustados sexuais, numa desconstrução dos conceitos originais, convencionados desde sempre. O belo reizinho viril não usufrui a virilidade, é gay; a rainha, que deveria ser o símbolo máximo da beleza, é careca.

No melhor estilo de fábulas, “Bufólicas” apresenta, ao final de cada poema, “a moral da história”. Trata-se, portanto, de um jeito, até certo ponto, infantil de abordar o feio, o estranho, o erotismo e o grotesco.

…Metia o dedo
em todas as xerecas: loiras, pretas
Dizia-se até…
Que escarafunchava bonecas.

Moral da estória, em relação à Fadinha:
Quando menos se espera, tudo reverbera.
Moral da estória, em relação ao morador
Da vila do Troço:
Não acredite em Fadinhas.
Muito menos com cacete.
Ou somem feito andorinhas
Ou te deixam cacoetes.
(Hilst, 1992)

Entre as autoras brasileiras, no livro “Intimidades”, Hilda Hilst não está presente, o que leva a crer que sua literatura é considerada por muitos escritores como sendo pornográfica.

Se analisada com atenção, em sua obra a “pornografia” é considerada secundária, pois perde espaço para a crítica e outros temas mais profundos.

Em “O caderno rosa de Lori Lamby”, por exemplo, o pornográfico perde espaço. Um leitor mais radical pode abandonar a leitura já nas primeiras páginas, devido à repulsa que o livro causa, mas, se ele for mais persistente e seguir com a leitura, encontrará riqueza de detalhes e uma linguagem infantil que dá mais veracidade aos fatos.

A menina loira de oito anos relata suas relações sexuais com homens. Isso torna Hilda uma escritora Universal, porque pedofilia, homossexualismo e complexo de Édipo estão presentes em todos os seus livros pós-“Lori Lamby”.

Em “Lori Lamby”, os tópicos abordados pela autora são a relação cega entre pais e filhos, a crítica e os questionamentos aos livros que vendem, à literatura “lixo”, a dificuldade de se manter no mercado literário, o mundo fantástico das crianças, a inocência e o erotismo.

O erotismo em Hilda Hilst, não é apenas e simplesmente a enumeração de cenas e comportamentos sexuais bizarros. É um grito filosófico, sociológico, subversivo. Filosófico porque o plano das idéias supera o plano dos contatos físicos. Uma relação sexual, em Hilda, nunca é apenas sexo. Há uma trama de pensamentos, motivos, medos, traumas e sentimentos conflitantes que regem a relação.

Sociológico porque o erotismo aqui é escrito por uma mulher, quebrando o mito de que as mulheres são apenas um objeto de consumo e desejo masculino. A mulher pode, ainda que seja camuflada e protegida por cartas – “Cartas de um sedutor” – manifestar e experimentar os desejos sexuais mais reprimidos.

Subversivo porque suas obras – não só as eróticas – quebraram um padrão estético. Hilda não utiliza ponto, maiúscula, minúscula dentro das trilhas da norma culta. Usa a linguagem, a gramática e a ortografia, para satisfazer a sua genialidade criadora.

CONCLUSÃO

Hilda Hilst tem de ser lida. Tem de ser estudada. Suas peças necessitam ser encenadas, e sua obra erótica merece ser lida sem a visão pornográfica habitual.

“O caderno rosa de Lori Lamby” e os livros que vêm depois dele escondem temas humanos, psicológicos e sociológicos em suas estrelinhas. Ler Hilda Hilst é fazer um passeio pela mente humana. É conhecer um pouco mais a fundo o bicho-homem. Conhecer apenas, entendê-lo talvez seja uma tarefa que ninguém conseguirá acabar. Tão simples e tão complexo, assim é o homem, tal qual a obra de Hilda Hilst.

REFERÊNCIAS

DUARTE, Edson Costa e MACHADO, Clara Silveira. A vida: uma aventura obscena de tão lúcida. In: Hilst, H. Estar sendo. Ter sido. São Paulo: Nankin, 1997, pp. 119-24.

FRANCESCHI, Antonio Fernando de. (Dir. Editorial). Cadernos de Literatura, Hilda Hilst. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 1999.

HILST, H. O caderno rosa de Lori Lamby. 2. ed. São Paulo: Massao Ohno, 1990.

_____. Contos d’escárnio/ Textos Grotescos. 2.ed. São Paulo: Sciliciano, 1992.

_____. Cartas de um sedutor. São Paulo: Paulicéia, 1991.

_____. Fluxo-Floema. São Paulo: Perspectiva: 1970.

_____. Bufólicas. São Paulo: Massao Ohno, 1992

_____. Ficções. São Paulo: Quíron, 1977.

Paulo Leminski

 

…viver
com a intensidade da arte
levou-o ao infarte…

A escrita leminskiana me leva ao êxtase. Diz tudo que se tem a ser dito com meia dúzia de palavras-navalha, corta a carne de quem lê e deixa exposta a intensidade de uma poesia pura, de um espírito criativo, de uma mente insanamente brilhante.

Pode parecer exagero tudo isso, eu admito. Mas o fato é que não existe poeta curitibano – leia-se brasileiro – que alcance a genialidade de Leminski. Com Leminski, poesia é tontura, é soco na jugular e frio na barriga. O cara sabia o que fazia, e fazia com gosto.

Antes de Leminski – para mim, é claro – só Fernando Pessoa. Irônico e cortante como o luso poeta, Leminski invadiu a minha pacata vida de pessoinha sonhadora quando, numa tarde sem sol na biblioteca pública, encontrei um livro. Não era dele. Era a biografia.

Na capa, um sujeito alto e bigodudo. E o título era promissor: “O Bandido que sabia Latim”. Toninho Vaz, o autor da biografia, escreveu uma história tão envolvente que acabei lendo o livro todo em uma noite só. Acabei apaixonada pela obra e pelo poeta.

E da poesia, um soquinho na boca do estômago:

PARADA CARDÍACA

Essa minha secura

essa falta de sentimento

não tem ninguém que segure

vem de dentro
Vem da zona escura

donde vem o que sinto

sinto muito

sentir é muito lento

Coisa que enlouquece uma curitibana, especialmente apaixonada por Leminski, é ver como Curitiba é madrasta para os seus filhos artistas. Leminski virou nome da pedreira. E é só isso. Antes ainda acontecia o Perhappiness, mas agora não há mais nada. É bem provável que a maioria dos curitibanos nem saiba que o tal Leminski da pedreira é o Leminski gênio-poeta.

Curitiba é mesmo um cu!

PRA QUE CARA FEIA?
NA VIDA
NINGUÉM PAGA MEIA


O dia em que li Kafka

Foi uma experiência única. Da primeira vez em que li uma obra de Kafka não tinha lá muito conhecimento técnico sobre o que lia, nem conseguia entender as reações que aquele mundo fantástico me causavam.

Era uma manhã qualquer do ano de 1998. Eu estava no ensino médio e havia dias em que não conseguia de maneira nehuma cumprir o protocolo de ficar quietinha ouvindo os professores falar sobre coisas que nunca importariam para a minha doce vidinha de sonhadora amalucada.

A biblioteca do colégio tinha toda uma atmosfera mórbida que me atraía de um jeito incontrolável. Ocupando uma parede inteirinha, fotos em preto e branco das turmas que se formaram ali há décadas. Ficava hipnotizada olhando para cada rosto, pensando que muitas daquelas pessoas, que antes ocupavam as mesmas carteiras que eu, e liam os mesmos livros ali na biblioteca, talvez já estivessem mortas. A morte sempre exerceu sobre mim um estranho fascínio.

Tinha também um antigo piano de cauda carregado do peso de toda uma existência sem uso. Qual o fim de um piano em uma biblioteca de colégio? Ainda se ele estivesse lá no teatro. Mas não, bem no meio da biblioteca! Sem nunca ser tocado. Acho que foi nessa época que comecei a acreditar que os instrumentos musicais têm alma. A alma daquele piano era triste, eu sentia.
E os livros. Estantes lotadas do chão ao teto do conhecimento ocidental, das ciências, das artes, da matemática e da literatura.

Naquela manhã, andei por entre as estantes enormes e sofri um pouco por causa dos milhões de ácaros daquele lugar, a poeira ali era quase centenário. Passei os olhos pelos nomes dos autores, pelas capas coloridas, pelos títulos dos livros, até pousar o olhar n’A Metamorfose.

“Certa manhã, ao despertar de seonhos intranqüilos, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.”

Não foi preciso mais nenhuma palavra, com o livro nas mãos, sentei no chão da biblioteca, no fundo do último corredor e fiquei ali, dominada por aquele Gregor Samsa tão heróico e tão sofrido. Só levantei do chão ao ler a última página, com lágrimas nos olhos por causa da morte de Samsa.

Minutos depois, o sinal batia, e as ruas eram tomadas por um lençol juvenil de uniforme vinho.
Anos depois, na faculdade, me vejo escrevendo uma tese sobre o fantástio em Kafka, o fantástico em Borges, em García Márquez, em Poe.

Primeiras Estórias

Guimarães Rosa escreve sobre o humano, o sobrenatural, sobre o mundo, de uma maneira fantástica. A realidade em Guimarães é a realidade da alma, e por isso mesmo, é uma realidade ilusória.
O conto “A terceira margem do rio”, de Primeiras Estórias, retrata o mundo de uma família que de uma hora para outra, vê seu pai abandonar a corrente da lida dita “normal”, para isolar-se no rio dentro de uma canoa. Uma história toda sem nomes, próprios, o narrador usa apenas “nosso pai”, “nossa mãe”. Os nomes já não importam mais, importa que cada um ocupe e desempenhe suas funções dentro do sistema familiar. Mas o pai, porém, abandona seu posto e vai encontrar a sua própria identidade, no meio do rio, vivendo numa realidade que para todos os outros é ilusória, mas que para ele é libertadora. O rio, a terceira margem é o canal que o leva a uma outra dimensão do real.
É o que acontece também em “A menina de lá”. A cidade onde ela “Nhinhinha” vive já um ambiente cheio de imagens que conduzem à terceira margem.
Um lugar isolado, marcado pelo tradicionalismo e crenças católicas cristã: a casa para trás da Serra do Mim, a cidade chamada Temor-de-Deus. E Nhinhinha que já nasceu aquém do limite entre a loucura e a lucidez, logo é considerada santa pela população da cidade. A realidade em que Nhinhinha vive é diferente das outras pessoas. Ela, porém, é mais sensível para enxergar o que ninguém mais enxerga o que mais ninguém vê, porque ela tem a calma contemplativa dos loucos, a doçura e a inocência das crianças. Nhinhinha é poética “Dizia que o ar estava com cheiro de lembrança” – “A gente não vê quando o vento se acaba…” Guimarães é poético narrando o fantástico.
Sôroco, sua mãe, sua filha, já não é tão fantástico quantos os dois primeiros, mas tem uma cena – os três últimos parágrafos – mais envolvente do que qualquer outra. Sôroco e uma multidão, tomados como num transe coletivo, cantando a canção de loucura que sua mãe e sua filha cantavam. Sôroco tinha naquela canção a sua identidade, apesar de negá-la enquanto as duas ainda estavam com ele. Restou então, assumir tal identidade, cantando o canto de loucura e aceitando a realidade que apesar da ilusória sempre foi dele.
Fatalidade o nome do conto já é instigante, fatalidade, o inevitável. O conto narrado em primeira pessoa segue um padrão único do autor. O narrador participa da ação é amigo do delegado, mas a questão levantada pelo conto é a respeito da vida e sua importância. Herculinão merecia a morte? Paira no ar o questionamento, a insignificância da vida. Meu Amigo é um personagem mistificado, ou seja, perfeito. Meticuloso e poeta, um paradoxo.
No decorrer do conto encontramos várias reflexões sobre a vida, a morte entre elas destaquei as seguintes:
Costumava afirmar:
“A vida de um ser humano, entre outros seres humanos, é impossível, o que vemos, é apenas milagre; salvo melhor raciocínio.” (pág 107)
Segundo a citação acima, a vida é impossível entre seres humanos, o que vemos é apenas milagre, o milagre da vida, a existência, uma reflexão feita por um filósofo, poeta, um homem sensível, que questiona e argumenta afirmando em poucas palavras as diferenças entre os seres, a incompreensão dos seres ditos diferentes.
Especulando:
“Só quem entendia de tudo eram os gregos. A vida tem poucas possibilidades.” (pág 107)
Aqui um tanto fatalista, os gregos antigos sábios, mitológicos, com sua religião politeísta, sempre com explicações para fenômenos deuses que representam o magnífico da vida, fantástico, o ar a água, eram sábios, suas respostas estavam além da vida, algo imaterial desejável. Guimarães Rosa deixa explicito o caráter dado à obra, filosófica e fatalista.
Do que disse:
“Se o destino são componentes consecutivas – além das circunstâncias gerais de pessoas, tempo e lugar … e o Karma …” (pág. 108).
O Karma é uma realidade ilusória, céticos trazemos conosco nossos karmas passados, é sobrenatural, ratifica o tom ilusório e sublime da obra.
O homenzinho franzino trás ao delegado seus problemas, ódio, descontentamento quanto ao suposto cortejo feito a sua esposa pelo personagem Herculinão Socó. Um homem enciumado, simples e ingênuo que tem honra a ser defendida, não admite que homem olhe para sua esposa como Herculinão Socó ousou fazer, homenzinho Zé Centeralfe apesar de sentir-se ofendido, tentou evitar o inevitável, mudou-se com a esposa, em busca de paz, mas o homem os perseguiu, e novamente Zé Centeralfe e a esposa fugiram do inevitável, destino. Cansado porém de fugir, buscou ajuda junto a lei. Em uma tocaia Herculinão Socó foi abatido sem direito a reação, sem saber de onde partiu o tiro fatal. O delegado “Meu Amigo” na sua realidade ilusória compara-se ao heróico Aquiles, frio e calculista, procura forjar a atitude tomada – “Resistência à prisão constatada…”(pág 112) – e reflete o vivenciar, terra inabitada sem lei, vida sem valor, como provado foi.
Seqüência o conto preferido de Guimarães Rosa sem dúvida o melhor, o que tem mais beleza o espaço simbólico da existência. Seqüência narra a trajetória de uma vaca, animal sagrado o moço filho do fazendeiro Rigério dono da Pedra resolve tomar iniciativa e capturar a vaca. Não sabendo seu destino incerto, a vaca astuta leva-o ao seu destino inesperado.
Refletir ao ler o conto sobre o destino de alguém, que por via das dúvidas é levado sem revoga ao que lhe parece iminente o amor.
O rapaz apresenta as fraquezas e objetivos do ser em busca de algo, passa por um momento de desistência, mas a sua honra fala mais alto.
“Pensou palavra. O estúpido em que se julgava. Desanimadamente, ele, malandante, podia tirar atrás. Aonde um animal o levava? O incomeçado, o empatoso, o desnorte, o necessário. Voltasse sem ela, passava vergonha. Por que tinha assim tentado? Triste em torno”. (pág 115).
O personagem entra em atrito consigo mesmo, ele sabe que está fazendo algo absurdo, mas incontestavelmente segue sua busca.
A vaca com singela volta para casa com sua missão realizada, unir duas almas que decerto se procuravam.
“O moço compreendeu-se. Aquilo mudava o acontecido. Da vaca, ele a ela diria: – ‘É sua.’ Suas duas almas se transformavam? E tudo à razão do ser. No mundo nem há parvoíces: o mel do maravilhoso, vindo a tais horas de estórias, o anel dos maravilhados. Amavam-se.”(pág 118).
Os irmãos Dagobé o conto inesperado, aqui Guimarães Rosa mostra as duas faces da humanidade o bem e o mal. Um homem respeitado de paz é afrontado por Damastor Dagobé um homem cuja natureza é obscura, homem violento assassino cruel, manda e desmanda com arrogância e prepotência, desafia o pobre Liojorge que num gesto de defesa acaba matando do seu oponente.
A realidade ilusória, realidade o bem e o mal o ilusório a precipitação do julgamento, por fim o principio de reversibilidade, onde tudo que era esperado enfim foi-se quebrado, derrubado. As pessoas se preparavam para o pior, mas a atitude tomada por Liojorge torna o inevitável em inexistente, mostra o valor de um homem honrado isento de culpa, mas culpado por dentro, vai atrás da sua sentença não procura fugir como um rato amedrontado, mas enfrenta seu destino com coragem e astúcia digna de predadores. Liojorge, porém tenta se retratar do mal feito, e acaba aliviando os irmãos Dagobé da defesa da honra familiar.
Por fim o irmão sucessor da liderança da família reconhece os defeitos do falecido com respeito e sinceridade, liberta em tom de perdão o assassino do irmão.
“Moço, o senhor vá, se recolha. Sucede que o meu saudoso Irmão é que era um diabo de danado …” (pág 78)
Aqui Guimarães Rosa deixa explicito uma critica as ordens cegas e desmedidas de ditadores, que não agradam, mas são temidos. O eterno obedecer dos pobres.
A libertação dos irmãos Dagobé do regime regido pelo irmão falecido, na realidade todos os presentes no velório estavam agradecidos a Liojorge.
O filme “A terceira margem do rio” faz uma mixagem de alguns contos de Guimarães Rosa, usa o mesmo ator para representar os personagens principais, o gancho dado para ligar uma obra à outra é imperceptível às pessoas que não tenham tido acesso às obras, torna o filme um único conto.
A visão dada pelo filme quebra o encanto do conto lido, são artes diferentes embora estejam ligadas. “A menina de lá” é fantástico no filme, chama atenção, ficando então no plano central. O pai da menina e a menina são seres fantásticos pertencentes ao lado de lá. A obra principal dá nome ao título e a central divide a obra. Terminando com ensejo inicial a margem do rio.
Apesar de antigo e sem as técnicas usadas nos filmes atuais do cinema mundial, vemos o esforço e simplicidade transformada em obra prima do cinema nacional.

Sobre verdades e mentiras

Escrever como um exercício de redenção ou como uma forma de assumir uma identidade nova, pensada e projetada com todos os detalhes daquilo que sempre quisemos ser.
Ler, e aceitar ou não as mentiras como verdades inquestionáveis, e as verdades pintadas com tintas que não as delas.
Seja como for, literatura – a boa literatura, pelo menos – é capaz de nos levar a tudo isso, a todas essas sensações e permissões, a nos esvaziar de nós mesmos e vivermos – ainda que momentaneamente – num outro mundo, mais perfeito e mais milimetricamente pensado.
Neste ensaio discutiremos as dualidades do processo de criação da literatura e da leitura que fazemos de tais dualidades, tendo como textos-base os escritos de Mario Vargas Llosa e o seu “A verdade das mentiras” e a “A escrita como leitura”, de Susan Sontag.

Ler é o mais prazeroso exercício mental que se pode ter – independentemente da veracidade do que se lê.
Ler, aceitando que ficção é só uma projeção das coisas do jeito que poderiam ou que nós queríamos que fossem, é melhor ainda.
Aceitar que na literatura alguns bichos podem falar, que um homem morto pode escrever do além as suas memórias, que um rochedo intransponível no meio do oceano tinha sido um gigante apaixonado pela mais belas das ninfas, que Penélope esperou – sempre confiante e fiel – durante 20 anos pela volta de seu amado Ulisses, que uma única mulher tenha sido o motivo que iniciou a guerra e a destruição de Tróia, é nos deixarmos ser raptados e ao mesmo tempo libertados por essas mentiras.
Susan Sotang, citando Virginia Woolf diz que “o estado de leitura consiste na eliminação do ego”. Eliminar o ego, abrir as portas da percepção para o fantástico fantasioso, para a mentira que captura as convenções e mostra outros caminhos, que eleva a identidade de quem lê.

Verdade. Mentira. Paradoxos sutilmente ligados que podem ser facilmente maquiados pelas mãos e mentes dos profissionais – todos com defeito de fabricação – da literatura.
Como já dissemos antes, e Llosa e Sotang confirmam, não importa se o que lemos é verdade ou mentira. Importa o efeito do que lemos em nossas percepções, emoções e identidades.
Literatura não é somente um inventário extenso – e por isso mesmo monótono – daquilo que já sabemos e conhecemos, mas um mundo novo a ser explorado a cada nova página escrita, a cada nova página lida.

A morte de Machado de Assis


[desconstruindo Machado]

 

A teoria da desconstrução em “Memorial do Fim: a morte de Machado de Assis”

“Nada de nada se sabia e se sabe; porque tudo foram fabulações de quem se propôs a arrastar personagens de romance para a vida social.”
Haroldo Maranhão

Haroldo Maranhão em “Memorial do Fim…” desconstrói a obra do bruxo para retratar os últimos dias e a morte de um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos, Machado de Assis.

A desconstrução contida em um livro como esse de Haroldo Maranhão faz com que o texto aceite várias leituras possíveis, ou seja, os personagens de Machado ganham novos contextos e talvez até outras identidades. Haroldo Maranhão tira do contexto original – os romances escritos – personagens que se confundem com as pessoas que estiveram presentes na vida e nos últimos de Machado.

Então, “Memorial do Fim…” tem a desconstrução como base para reconstruir. Desconstruindo o autor (Machado de Assis) e a sua obra, Haroldo carimba o passaporte para a fantástica ilha da imitação, onde escreve como se fosse o próprio Machado contando seus últimos dias, se apropria de seus personagens e ainda dá a esses personagens identidades múltiplas que fazem o leitor mais desatento se perder em meio a tantos nomes. Temos aí uma D.Carmo que é Carolina, Carolina que é Fidélia, Fidélia que é também Marcela e Marcela que pode ser uma nova paixão do escritor. Além disso, em alguns momentos Machado é ele mesmo, em outros Machado é Aires.

Da desconstrução faz-se o novo e o novo vem cheio de pequenos pedaços do velho. Está aí uma “licença” para que o livro todo tenha um certo gosto “machadiano”. Isso não está só nos personagens que saem dos livros da ficção e saltam para um outro que parece ser um livro de ficção-biográfica-pré-morte, mas também no estilo de escrever.

Os títulos dos capítulos vêm com a marca do bruxo já registrada, por exemplo, em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”: “Memorial do Fim…” (capítulo XV – Um evento de 1876); “Memórias Póstumas…” (capítulo XII Um episódio de 1814). Isso junto com o tratamento dado aos leitores – embora em graus diferentes: enquanto Machado conversa com o leitor, Haroldo deixa para o leitor armadilhas e pistas – pode ser encarado como pequenos pedaços desconstruídos da obra e da genialidade de Machado de Assis, reconstruídos quase como num mosaico.

MARANHÃO, Haroldo – Memorial do Fim: a morte de Machado de Assis – 2. ed. – São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2004.

ASSIS, Machado – Memórias Póstumas de Brás Cubas – São Paulo: Editora Martin Claret, 2004.