Arquivo da categoria ‘franz kafka’

O dia em que li Kafka

Foi uma experiência única. Da primeira vez em que li uma obra de Kafka não tinha lá muito conhecimento técnico sobre o que lia, nem conseguia entender as reações que aquele mundo fantástico me causavam.

Era uma manhã qualquer do ano de 1998. Eu estava no ensino médio e havia dias em que não conseguia de maneira nehuma cumprir o protocolo de ficar quietinha ouvindo os professores falar sobre coisas que nunca importariam para a minha doce vidinha de sonhadora amalucada.

A biblioteca do colégio tinha toda uma atmosfera mórbida que me atraía de um jeito incontrolável. Ocupando uma parede inteirinha, fotos em preto e branco das turmas que se formaram ali há décadas. Ficava hipnotizada olhando para cada rosto, pensando que muitas daquelas pessoas, que antes ocupavam as mesmas carteiras que eu, e liam os mesmos livros ali na biblioteca, talvez já estivessem mortas. A morte sempre exerceu sobre mim um estranho fascínio.

Tinha também um antigo piano de cauda carregado do peso de toda uma existência sem uso. Qual o fim de um piano em uma biblioteca de colégio? Ainda se ele estivesse lá no teatro. Mas não, bem no meio da biblioteca! Sem nunca ser tocado. Acho que foi nessa época que comecei a acreditar que os instrumentos musicais têm alma. A alma daquele piano era triste, eu sentia.
E os livros. Estantes lotadas do chão ao teto do conhecimento ocidental, das ciências, das artes, da matemática e da literatura.

Naquela manhã, andei por entre as estantes enormes e sofri um pouco por causa dos milhões de ácaros daquele lugar, a poeira ali era quase centenário. Passei os olhos pelos nomes dos autores, pelas capas coloridas, pelos títulos dos livros, até pousar o olhar n’A Metamorfose.

“Certa manhã, ao despertar de seonhos intranqüilos, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.”

Não foi preciso mais nenhuma palavra, com o livro nas mãos, sentei no chão da biblioteca, no fundo do último corredor e fiquei ali, dominada por aquele Gregor Samsa tão heróico e tão sofrido. Só levantei do chão ao ler a última página, com lágrimas nos olhos por causa da morte de Samsa.

Minutos depois, o sinal batia, e as ruas eram tomadas por um lençol juvenil de uniforme vinho.
Anos depois, na faculdade, me vejo escrevendo uma tese sobre o fantástio em Kafka, o fantástico em Borges, em García Márquez, em Poe.