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Primeiras Estórias
Guimarães Rosa escreve sobre o humano, o sobrenatural, sobre o mundo, de uma maneira fantástica. A realidade em Guimarães é a realidade da alma, e por isso mesmo, é uma realidade ilusória.
O conto “A terceira margem do rio”, de Primeiras Estórias, retrata o mundo de uma família que de uma hora para outra, vê seu pai abandonar a corrente da lida dita “normal”, para isolar-se no rio dentro de uma canoa. Uma história toda sem nomes, próprios, o narrador usa apenas “nosso pai”, “nossa mãe”. Os nomes já não importam mais, importa que cada um ocupe e desempenhe suas funções dentro do sistema familiar. Mas o pai, porém, abandona seu posto e vai encontrar a sua própria identidade, no meio do rio, vivendo numa realidade que para todos os outros é ilusória, mas que para ele é libertadora. O rio, a terceira margem é o canal que o leva a uma outra dimensão do real.
É o que acontece também em “A menina de lá”. A cidade onde ela “Nhinhinha” vive já um ambiente cheio de imagens que conduzem à terceira margem.
Um lugar isolado, marcado pelo tradicionalismo e crenças católicas cristã: a casa para trás da Serra do Mim, a cidade chamada Temor-de-Deus. E Nhinhinha que já nasceu aquém do limite entre a loucura e a lucidez, logo é considerada santa pela população da cidade. A realidade em que Nhinhinha vive é diferente das outras pessoas. Ela, porém, é mais sensível para enxergar o que ninguém mais enxerga o que mais ninguém vê, porque ela tem a calma contemplativa dos loucos, a doçura e a inocência das crianças. Nhinhinha é poética “Dizia que o ar estava com cheiro de lembrança” – “A gente não vê quando o vento se acaba…” Guimarães é poético narrando o fantástico.
Sôroco, sua mãe, sua filha, já não é tão fantástico quantos os dois primeiros, mas tem uma cena – os três últimos parágrafos – mais envolvente do que qualquer outra. Sôroco e uma multidão, tomados como num transe coletivo, cantando a canção de loucura que sua mãe e sua filha cantavam. Sôroco tinha naquela canção a sua identidade, apesar de negá-la enquanto as duas ainda estavam com ele. Restou então, assumir tal identidade, cantando o canto de loucura e aceitando a realidade que apesar da ilusória sempre foi dele.
Fatalidade o nome do conto já é instigante, fatalidade, o inevitável. O conto narrado em primeira pessoa segue um padrão único do autor. O narrador participa da ação é amigo do delegado, mas a questão levantada pelo conto é a respeito da vida e sua importância. Herculinão merecia a morte? Paira no ar o questionamento, a insignificância da vida. Meu Amigo é um personagem mistificado, ou seja, perfeito. Meticuloso e poeta, um paradoxo.
No decorrer do conto encontramos várias reflexões sobre a vida, a morte entre elas destaquei as seguintes:
Costumava afirmar:
“A vida de um ser humano, entre outros seres humanos, é impossível, o que vemos, é apenas milagre; salvo melhor raciocínio.” (pág 107)
Segundo a citação acima, a vida é impossível entre seres humanos, o que vemos é apenas milagre, o milagre da vida, a existência, uma reflexão feita por um filósofo, poeta, um homem sensível, que questiona e argumenta afirmando em poucas palavras as diferenças entre os seres, a incompreensão dos seres ditos diferentes.
Especulando:
“Só quem entendia de tudo eram os gregos. A vida tem poucas possibilidades.” (pág 107)
Aqui um tanto fatalista, os gregos antigos sábios, mitológicos, com sua religião politeísta, sempre com explicações para fenômenos deuses que representam o magnífico da vida, fantástico, o ar a água, eram sábios, suas respostas estavam além da vida, algo imaterial desejável. Guimarães Rosa deixa explicito o caráter dado à obra, filosófica e fatalista.
Do que disse:
“Se o destino são componentes consecutivas – além das circunstâncias gerais de pessoas, tempo e lugar … e o Karma …” (pág. 108).
O Karma é uma realidade ilusória, céticos trazemos conosco nossos karmas passados, é sobrenatural, ratifica o tom ilusório e sublime da obra.
O homenzinho franzino trás ao delegado seus problemas, ódio, descontentamento quanto ao suposto cortejo feito a sua esposa pelo personagem Herculinão Socó. Um homem enciumado, simples e ingênuo que tem honra a ser defendida, não admite que homem olhe para sua esposa como Herculinão Socó ousou fazer, homenzinho Zé Centeralfe apesar de sentir-se ofendido, tentou evitar o inevitável, mudou-se com a esposa, em busca de paz, mas o homem os perseguiu, e novamente Zé Centeralfe e a esposa fugiram do inevitável, destino. Cansado porém de fugir, buscou ajuda junto a lei. Em uma tocaia Herculinão Socó foi abatido sem direito a reação, sem saber de onde partiu o tiro fatal. O delegado “Meu Amigo” na sua realidade ilusória compara-se ao heróico Aquiles, frio e calculista, procura forjar a atitude tomada – “Resistência à prisão constatada…”(pág 112) – e reflete o vivenciar, terra inabitada sem lei, vida sem valor, como provado foi.
Seqüência o conto preferido de Guimarães Rosa sem dúvida o melhor, o que tem mais beleza o espaço simbólico da existência. Seqüência narra a trajetória de uma vaca, animal sagrado o moço filho do fazendeiro Rigério dono da Pedra resolve tomar iniciativa e capturar a vaca. Não sabendo seu destino incerto, a vaca astuta leva-o ao seu destino inesperado.
Refletir ao ler o conto sobre o destino de alguém, que por via das dúvidas é levado sem revoga ao que lhe parece iminente o amor.
O rapaz apresenta as fraquezas e objetivos do ser em busca de algo, passa por um momento de desistência, mas a sua honra fala mais alto.
“Pensou palavra. O estúpido em que se julgava. Desanimadamente, ele, malandante, podia tirar atrás. Aonde um animal o levava? O incomeçado, o empatoso, o desnorte, o necessário. Voltasse sem ela, passava vergonha. Por que tinha assim tentado? Triste em torno”. (pág 115).
O personagem entra em atrito consigo mesmo, ele sabe que está fazendo algo absurdo, mas incontestavelmente segue sua busca.
A vaca com singela volta para casa com sua missão realizada, unir duas almas que decerto se procuravam.
“O moço compreendeu-se. Aquilo mudava o acontecido. Da vaca, ele a ela diria: – ‘É sua.’ Suas duas almas se transformavam? E tudo à razão do ser. No mundo nem há parvoíces: o mel do maravilhoso, vindo a tais horas de estórias, o anel dos maravilhados. Amavam-se.”(pág 118).
Os irmãos Dagobé o conto inesperado, aqui Guimarães Rosa mostra as duas faces da humanidade o bem e o mal. Um homem respeitado de paz é afrontado por Damastor Dagobé um homem cuja natureza é obscura, homem violento assassino cruel, manda e desmanda com arrogância e prepotência, desafia o pobre Liojorge que num gesto de defesa acaba matando do seu oponente.
A realidade ilusória, realidade o bem e o mal o ilusório a precipitação do julgamento, por fim o principio de reversibilidade, onde tudo que era esperado enfim foi-se quebrado, derrubado. As pessoas se preparavam para o pior, mas a atitude tomada por Liojorge torna o inevitável em inexistente, mostra o valor de um homem honrado isento de culpa, mas culpado por dentro, vai atrás da sua sentença não procura fugir como um rato amedrontado, mas enfrenta seu destino com coragem e astúcia digna de predadores. Liojorge, porém tenta se retratar do mal feito, e acaba aliviando os irmãos Dagobé da defesa da honra familiar.
Por fim o irmão sucessor da liderança da família reconhece os defeitos do falecido com respeito e sinceridade, liberta em tom de perdão o assassino do irmão.
“Moço, o senhor vá, se recolha. Sucede que o meu saudoso Irmão é que era um diabo de danado …” (pág 78)
Aqui Guimarães Rosa deixa explicito uma critica as ordens cegas e desmedidas de ditadores, que não agradam, mas são temidos. O eterno obedecer dos pobres.
A libertação dos irmãos Dagobé do regime regido pelo irmão falecido, na realidade todos os presentes no velório estavam agradecidos a Liojorge.
O filme “A terceira margem do rio” faz uma mixagem de alguns contos de Guimarães Rosa, usa o mesmo ator para representar os personagens principais, o gancho dado para ligar uma obra à outra é imperceptível às pessoas que não tenham tido acesso às obras, torna o filme um único conto.
A visão dada pelo filme quebra o encanto do conto lido, são artes diferentes embora estejam ligadas. “A menina de lá” é fantástico no filme, chama atenção, ficando então no plano central. O pai da menina e a menina são seres fantásticos pertencentes ao lado de lá. A obra principal dá nome ao título e a central divide a obra. Terminando com ensejo inicial a margem do rio.
Apesar de antigo e sem as técnicas usadas nos filmes atuais do cinema mundial, vemos o esforço e simplicidade transformada em obra prima do cinema nacional.
A morte de Machado de Assis
[desconstruindo Machado]
A teoria da desconstrução em “Memorial do Fim: a morte de Machado de Assis”
“Nada de nada se sabia e se sabe; porque tudo foram fabulações de quem se propôs a arrastar personagens de romance para a vida social.”
Haroldo Maranhão
Haroldo Maranhão em “Memorial do Fim…” desconstrói a obra do bruxo para retratar os últimos dias e a morte de um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos, Machado de Assis.
A desconstrução contida em um livro como esse de Haroldo Maranhão faz com que o texto aceite várias leituras possíveis, ou seja, os personagens de Machado ganham novos contextos e talvez até outras identidades. Haroldo Maranhão tira do contexto original – os romances escritos – personagens que se confundem com as pessoas que estiveram presentes na vida e nos últimos de Machado.
Então, “Memorial do Fim…” tem a desconstrução como base para reconstruir. Desconstruindo o autor (Machado de Assis) e a sua obra, Haroldo carimba o passaporte para a fantástica ilha da imitação, onde escreve como se fosse o próprio Machado contando seus últimos dias, se apropria de seus personagens e ainda dá a esses personagens identidades múltiplas que fazem o leitor mais desatento se perder em meio a tantos nomes. Temos aí uma D.Carmo que é Carolina, Carolina que é Fidélia, Fidélia que é também Marcela e Marcela que pode ser uma nova paixão do escritor. Além disso, em alguns momentos Machado é ele mesmo, em outros Machado é Aires.
Da desconstrução faz-se o novo e o novo vem cheio de pequenos pedaços do velho. Está aí uma “licença” para que o livro todo tenha um certo gosto “machadiano”. Isso não está só nos personagens que saem dos livros da ficção e saltam para um outro que parece ser um livro de ficção-biográfica-pré-morte, mas também no estilo de escrever.
Os títulos dos capítulos vêm com a marca do bruxo já registrada, por exemplo, em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”: “Memorial do Fim…” (capítulo XV – Um evento de 1876); “Memórias Póstumas…” (capítulo XII Um episódio de 1814). Isso junto com o tratamento dado aos leitores – embora em graus diferentes: enquanto Machado conversa com o leitor, Haroldo deixa para o leitor armadilhas e pistas – pode ser encarado como pequenos pedaços desconstruídos da obra e da genialidade de Machado de Assis, reconstruídos quase como num mosaico.
MARANHÃO, Haroldo – Memorial do Fim: a morte de Machado de Assis – 2. ed. – São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2004.
ASSIS, Machado – Memórias Póstumas de Brás Cubas – São Paulo: Editora Martin Claret, 2004.
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