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Hilda Hilst

TER SIDO. ESTAR SENDO

Hilda Hilst, depois de anos seguindo a linha da literatura considerada “séria”, parte para a produção de textos, em prosa e verso, eróticos.

O primeiro dessa série, “O caderno rosa de Lori Lamby”, chega ao público causando estranhamento e revolta. Ao contrário do que ela esperava, sua literatura erótica foi odiada pelo leitor, que considerou os textos uma pornografia.

“Cartas de um sedutor” aborda o homossexualismo e o incesto, de uma forma intensa, forte e crua. O narrador confessa os seus próprios desejos e, além disso, denuncia os desejos incestuosos que o aproximam da própria irmã.

Parece que o que rege a vida desses dois irmãos é o sexo. Não o sexo como fonte apenas de prazer, mas como uma tentativa de encontrar-se com o próprio eu, de amenizar a dor de não saber quem é. Uma tentativa de negar e reafirmar o absurdo desejo pelos pais.

Quanto as terríveis recordações que tens do papai, acho muito estranho. Terríveis por quê? Porque te sentes culpada de tê-lo desejado? Isso tudo me parece tão démodé e tão chato. Eu mesmo desejei. Aquele peito dourado, aquelas coxas douradas, aqueles olhos amarelo-dourado, ah,!!! já sei continuas chorando papai … o sol. Não acredito, Cordélia, que aos 40 continues com esse arremedo de tara.
(HILST, 1991, p.27-28)

Há muito mais do que simples pornografia na série que se inicia com “O caderno rosa de Lori Lamby”. Há um estudo complexo da alma humana, das relações incestuosas, dos dramas psicológicos. Há intertextualidade com clássicos da literatura. Há uma crítica ácida à banalização da literatura. Há, acima de tudo, um retrato recorrente do homem e seu espírito sujo. Não é de se estranhar, portanto, a repulsa do leitor com relação a tais obras.

HILDA E DALTON

Quem lê o curitibano Dalton Trevisan certamente sentirá um gosto já conhecido ao ler Hilda Hilst. Dois dos maiores escritores da literatura moderna, Hilda e Dalton se aproximam por meio da linguagem inovadora de seus escritos e de seus temas eróticos, grotescos e críticos. “Nunca me esqueço daquele peido providencial prolongado e silencioso dos meus 14 anos…” (HILST, 1991). “Casei com uma puta do Passeio Público. Tinha tanto piolho que, uma noite dormia de porre, botei um pó no cabelo dela. Dia seguinte, lavou a cabeça e ficou meio cega.” (TREVISAN, 1992).

Nota-se nos dois trechos acima que a linguagem utilizada em ambos é informal, direta, mais próxima da língua falada. Os temas também se assemelham. O primeiro trecho, de Hilst, é tirado de um conto em que o narrador conta como foi sua primeira relação sexual. Á presença do medo constante funde-se o engraçado, o patético, a superstição e, por fim, o inusitado peido que surge como um sinal divino para que a relação não aconteça. Um contraposto com a tragicomédia do segundo trecho, de Dalton Trevisan, onde o grotesco sem-graça se torna engraçado como em um filme “trash”.

Existem muitas características que aproximam os dois autores, mas existem também algumas diferenças fundamentais para que cada um siga sendo único no seu modo de escrever.

Dalton Trevisan é um escritor regional, seus contos, amores e desgostos, estão ambientados em uma redoma de vidro chamada Curitiba. Ele é um apaixonado pela cidade, o que não impede que a cidade seja alvo das mais ácidas críticas em seus textos.

Hilda Hilst não se prende à localização regional, até porque sua literatura tem um plano de fundo um pouco mais profundo e obscuro. Hilda não fala sobre parques e ruas, mas de pessoas e do complexo mundo que é viver.

DAS LETRAS SAGRADAS ÀS TRAMAS SEXUAIS

Antes de falar sobre o erotismo, Hilda Hilst falou sobre Deus, morte, existencialismo, amor. Sempre usando linguagem indomável, narrativas repletas de efeitos, cortes, flashes e imagens. A compreensão de todos os textos sempre depende ou gira em torno de uma “chave”.

Em “A obscena Senhora D”, a “chave” é saber quem é Hillé. Mãe? Filha? Uma senhora, ou uma menina? E Ehud, uma alucinação fantasmagórica? O fluxo narrativo é hermético e descobrir o fio central de toda a trama, tarefa um pouco ingrata para os mais desacostumados, é como “afundar os dedos na matéria do mundo”.

Questionamentos infantis retratam o questionamento universal. Quem é Deus? Por que morremos? Quem somos? Por que vivemos?

…é ta certo, isso de comer e de meter fiz muito gosto, que coisa que tem mais na vida? Que coisa? Depois da morte nada, depois da morte aquela fome, aquela escuridão. Acredita em alma de defunto seu Tunico? Besteira o mundo ta voluído, não tem mais isso não. E Deus? Olhe, isso é assunto de padre, de ministro, de político, é Deus todo dia dentro da boca, de dia Deus, de noite a teta de uma, a pomba de outra, eles é que se regateiam, viu?
(Hilst, 1982)

Na poesia, Hilda torna-se mais introspectiva e fala de sentimentos, predominantemente sobre o Amor, em “Do Amor”, volume de poemas reunidos. Amor, Vida, amor que gera a Vida, Vida que subexiste através do amor. Questionamentos sobre o mistério da Vida continuam.

“Ainda em desamor, tempo de amor será.
Seu tempo e contratempo.
Nascendo espesso como um arvoredo
e como tudo que nasce, morrendo
à medida que o tempo nos desgasta.
Amor, o que renasce.”
(COELHO, 1999)

O EROTISMO PORNOGRÁFICO

Deus não sai de cena quando o tema central é o sexo, o homossexualismo, as fantasias e a loucura sexual. Embora não sejam invocados propriamente, seres celestes, gnósticos e astrais fazem parte do mundo sexual.

Em “Bufólicas”, personagens de contos de fadas são apresentados como desajustados sexuais, numa desconstrução dos conceitos originais, convencionados desde sempre. O belo reizinho viril não usufrui a virilidade, é gay; a rainha, que deveria ser o símbolo máximo da beleza, é careca.

No melhor estilo de fábulas, “Bufólicas” apresenta, ao final de cada poema, “a moral da história”. Trata-se, portanto, de um jeito, até certo ponto, infantil de abordar o feio, o estranho, o erotismo e o grotesco.

…Metia o dedo
em todas as xerecas: loiras, pretas
Dizia-se até…
Que escarafunchava bonecas.

Moral da estória, em relação à Fadinha:
Quando menos se espera, tudo reverbera.
Moral da estória, em relação ao morador
Da vila do Troço:
Não acredite em Fadinhas.
Muito menos com cacete.
Ou somem feito andorinhas
Ou te deixam cacoetes.
(Hilst, 1992)

Entre as autoras brasileiras, no livro “Intimidades”, Hilda Hilst não está presente, o que leva a crer que sua literatura é considerada por muitos escritores como sendo pornográfica.

Se analisada com atenção, em sua obra a “pornografia” é considerada secundária, pois perde espaço para a crítica e outros temas mais profundos.

Em “O caderno rosa de Lori Lamby”, por exemplo, o pornográfico perde espaço. Um leitor mais radical pode abandonar a leitura já nas primeiras páginas, devido à repulsa que o livro causa, mas, se ele for mais persistente e seguir com a leitura, encontrará riqueza de detalhes e uma linguagem infantil que dá mais veracidade aos fatos.

A menina loira de oito anos relata suas relações sexuais com homens. Isso torna Hilda uma escritora Universal, porque pedofilia, homossexualismo e complexo de Édipo estão presentes em todos os seus livros pós-“Lori Lamby”.

Em “Lori Lamby”, os tópicos abordados pela autora são a relação cega entre pais e filhos, a crítica e os questionamentos aos livros que vendem, à literatura “lixo”, a dificuldade de se manter no mercado literário, o mundo fantástico das crianças, a inocência e o erotismo.

O erotismo em Hilda Hilst, não é apenas e simplesmente a enumeração de cenas e comportamentos sexuais bizarros. É um grito filosófico, sociológico, subversivo. Filosófico porque o plano das idéias supera o plano dos contatos físicos. Uma relação sexual, em Hilda, nunca é apenas sexo. Há uma trama de pensamentos, motivos, medos, traumas e sentimentos conflitantes que regem a relação.

Sociológico porque o erotismo aqui é escrito por uma mulher, quebrando o mito de que as mulheres são apenas um objeto de consumo e desejo masculino. A mulher pode, ainda que seja camuflada e protegida por cartas – “Cartas de um sedutor” – manifestar e experimentar os desejos sexuais mais reprimidos.

Subversivo porque suas obras – não só as eróticas – quebraram um padrão estético. Hilda não utiliza ponto, maiúscula, minúscula dentro das trilhas da norma culta. Usa a linguagem, a gramática e a ortografia, para satisfazer a sua genialidade criadora.

CONCLUSÃO

Hilda Hilst tem de ser lida. Tem de ser estudada. Suas peças necessitam ser encenadas, e sua obra erótica merece ser lida sem a visão pornográfica habitual.

“O caderno rosa de Lori Lamby” e os livros que vêm depois dele escondem temas humanos, psicológicos e sociológicos em suas estrelinhas. Ler Hilda Hilst é fazer um passeio pela mente humana. É conhecer um pouco mais a fundo o bicho-homem. Conhecer apenas, entendê-lo talvez seja uma tarefa que ninguém conseguirá acabar. Tão simples e tão complexo, assim é o homem, tal qual a obra de Hilda Hilst.

REFERÊNCIAS

DUARTE, Edson Costa e MACHADO, Clara Silveira. A vida: uma aventura obscena de tão lúcida. In: Hilst, H. Estar sendo. Ter sido. São Paulo: Nankin, 1997, pp. 119-24.

FRANCESCHI, Antonio Fernando de. (Dir. Editorial). Cadernos de Literatura, Hilda Hilst. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 1999.

HILST, H. O caderno rosa de Lori Lamby. 2. ed. São Paulo: Massao Ohno, 1990.

_____. Contos d’escárnio/ Textos Grotescos. 2.ed. São Paulo: Sciliciano, 1992.

_____. Cartas de um sedutor. São Paulo: Paulicéia, 1991.

_____. Fluxo-Floema. São Paulo: Perspectiva: 1970.

_____. Bufólicas. São Paulo: Massao Ohno, 1992

_____. Ficções. São Paulo: Quíron, 1977.

Paulo Leminski

 

…viver
com a intensidade da arte
levou-o ao infarte…

A escrita leminskiana me leva ao êxtase. Diz tudo que se tem a ser dito com meia dúzia de palavras-navalha, corta a carne de quem lê e deixa exposta a intensidade de uma poesia pura, de um espírito criativo, de uma mente insanamente brilhante.

Pode parecer exagero tudo isso, eu admito. Mas o fato é que não existe poeta curitibano – leia-se brasileiro – que alcance a genialidade de Leminski. Com Leminski, poesia é tontura, é soco na jugular e frio na barriga. O cara sabia o que fazia, e fazia com gosto.

Antes de Leminski – para mim, é claro – só Fernando Pessoa. Irônico e cortante como o luso poeta, Leminski invadiu a minha pacata vida de pessoinha sonhadora quando, numa tarde sem sol na biblioteca pública, encontrei um livro. Não era dele. Era a biografia.

Na capa, um sujeito alto e bigodudo. E o título era promissor: “O Bandido que sabia Latim”. Toninho Vaz, o autor da biografia, escreveu uma história tão envolvente que acabei lendo o livro todo em uma noite só. Acabei apaixonada pela obra e pelo poeta.

E da poesia, um soquinho na boca do estômago:

PARADA CARDÍACA

Essa minha secura

essa falta de sentimento

não tem ninguém que segure

vem de dentro
Vem da zona escura

donde vem o que sinto

sinto muito

sentir é muito lento

Coisa que enlouquece uma curitibana, especialmente apaixonada por Leminski, é ver como Curitiba é madrasta para os seus filhos artistas. Leminski virou nome da pedreira. E é só isso. Antes ainda acontecia o Perhappiness, mas agora não há mais nada. É bem provável que a maioria dos curitibanos nem saiba que o tal Leminski da pedreira é o Leminski gênio-poeta.

Curitiba é mesmo um cu!

PRA QUE CARA FEIA?
NA VIDA
NINGUÉM PAGA MEIA