Arquivo da categoria ‘literatura estrangeira’

Álvaro de Campos – o pessimista

 É sabido que Fernando Pessoa – o grandessíssimo poeta lusitano – tinha lá suas mil personalidades poéticas, todas com biografia, esquisitices e genialidades. Sabe-se também que as mais famosas dessas personalidades – os heterônimos – Alberto Caiero, Ricardo Reis e Álvaro de Campos.  Aos dois primeiros nunca lancei um interesse mais profundo. Já de Álvaro de Campos preciso beber diariamente de seus poemas tão realistas quanto pessimistas. É o poeta do que é verdadeiro e amargo.

Sou vil, sou reles, como toda a gente,

não tenho ideais, mas não os tem ninguém.

quem diz que os tem é como eu, mas mente.

quem diz que os busca é porque não os tem.

O poeta não se sente melhor que os outros, até porque todos os outros são nada também. Ele enxerga a humanidade como ela realmente é: uma massa mentirosa, que produz essas mentiras em nome da vaidade, não por ideais.

Lembro-me de que seria interessante

Enforcar os filhos à vista das mães

(mas sinto-me sem querer as mães deles),

enterrar vivas nas ilhas desertas as crianças de quatro anos

levando os pais em barcos até lá para verem

Aguilhôo uma ânsia fria dos crimes marítimos,

Duma inquisição sem a desculpa da Fé,

Crimes sem sequer com razão de ser de maldade e de fúria,

Feitos a frio, nem sequer para ferir, nem sequer para fazer mal,

Nem sequer para nos divertirmos, mas apenas para passar o tempo

Pessimista e realista, Álvaro de Campos aparece algumas vezes com poemas que parecem máquinas desgovernadas, com ritmos acelerados e sucessão ininterrupta de imagens, define a si mesmo como um “sem-sentido” em meio a todo o caos da vida:

Eu, engenheiro de profissão, farto de tudo e de todos,

Eu, exageradamente supérfluo, guerreando as coisas

Eu, inútil, gasto, improfícuo, pretensioso e amoral,

Pra que diabo vivemos, e fazemos versos?

Porque nada fazemos e nada somos, a vida corre-nos lenta nas veias.

Continua…

O dia em que li Kafka

Foi uma experiência única. Da primeira vez em que li uma obra de Kafka não tinha lá muito conhecimento técnico sobre o que lia, nem conseguia entender as reações que aquele mundo fantástico me causavam.

Era uma manhã qualquer do ano de 1998. Eu estava no ensino médio e havia dias em que não conseguia de maneira nehuma cumprir o protocolo de ficar quietinha ouvindo os professores falar sobre coisas que nunca importariam para a minha doce vidinha de sonhadora amalucada.

A biblioteca do colégio tinha toda uma atmosfera mórbida que me atraía de um jeito incontrolável. Ocupando uma parede inteirinha, fotos em preto e branco das turmas que se formaram ali há décadas. Ficava hipnotizada olhando para cada rosto, pensando que muitas daquelas pessoas, que antes ocupavam as mesmas carteiras que eu, e liam os mesmos livros ali na biblioteca, talvez já estivessem mortas. A morte sempre exerceu sobre mim um estranho fascínio.

Tinha também um antigo piano de cauda carregado do peso de toda uma existência sem uso. Qual o fim de um piano em uma biblioteca de colégio? Ainda se ele estivesse lá no teatro. Mas não, bem no meio da biblioteca! Sem nunca ser tocado. Acho que foi nessa época que comecei a acreditar que os instrumentos musicais têm alma. A alma daquele piano era triste, eu sentia.
E os livros. Estantes lotadas do chão ao teto do conhecimento ocidental, das ciências, das artes, da matemática e da literatura.

Naquela manhã, andei por entre as estantes enormes e sofri um pouco por causa dos milhões de ácaros daquele lugar, a poeira ali era quase centenário. Passei os olhos pelos nomes dos autores, pelas capas coloridas, pelos títulos dos livros, até pousar o olhar n’A Metamorfose.

“Certa manhã, ao despertar de seonhos intranqüilos, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.”

Não foi preciso mais nenhuma palavra, com o livro nas mãos, sentei no chão da biblioteca, no fundo do último corredor e fiquei ali, dominada por aquele Gregor Samsa tão heróico e tão sofrido. Só levantei do chão ao ler a última página, com lágrimas nos olhos por causa da morte de Samsa.

Minutos depois, o sinal batia, e as ruas eram tomadas por um lençol juvenil de uniforme vinho.
Anos depois, na faculdade, me vejo escrevendo uma tese sobre o fantástio em Kafka, o fantástico em Borges, em García Márquez, em Poe.