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Álvaro de Campos – o pessimista
É sabido que Fernando Pessoa – o grandessíssimo poeta lusitano – tinha lá suas mil personalidades poéticas, todas com biografia, esquisitices e genialidades. Sabe-se também que as mais famosas dessas personalidades – os heterônimos – Alberto Caiero, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Aos dois primeiros nunca lancei um interesse mais profundo. Já de Álvaro de Campos preciso beber diariamente de seus poemas tão realistas quanto pessimistas. É o poeta do que é verdadeiro e amargo.
Sou vil, sou reles, como toda a gente,
não tenho ideais, mas não os tem ninguém.
quem diz que os tem é como eu, mas mente.
quem diz que os busca é porque não os tem.
O poeta não se sente melhor que os outros, até porque todos os outros são nada também. Ele enxerga a humanidade como ela realmente é: uma massa mentirosa, que produz essas mentiras em nome da vaidade, não por ideais.
Lembro-me de que seria interessante
Enforcar os filhos à vista das mães
(mas sinto-me sem querer as mães deles),
enterrar vivas nas ilhas desertas as crianças de quatro anos
levando os pais em barcos até lá para verem
…
Aguilhôo uma ânsia fria dos crimes marítimos,
Duma inquisição sem a desculpa da Fé,
Crimes sem sequer com razão de ser de maldade e de fúria,
Feitos a frio, nem sequer para ferir, nem sequer para fazer mal,
Nem sequer para nos divertirmos, mas apenas para passar o tempo
…
Pessimista e realista, Álvaro de Campos aparece algumas vezes com poemas que parecem máquinas desgovernadas, com ritmos acelerados e sucessão ininterrupta de imagens, define a si mesmo como um “sem-sentido” em meio a todo o caos da vida:
Eu, engenheiro de profissão, farto de tudo e de todos,
Eu, exageradamente supérfluo, guerreando as coisas
Eu, inútil, gasto, improfícuo, pretensioso e amoral,
…
Pra que diabo vivemos, e fazemos versos?
…
Porque nada fazemos e nada somos, a vida corre-nos lenta nas veias.
Continua…
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